quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Carta aberta ao meu Pai

Mudar e muito, é Possível. 



Carta aberta ao meu Pai, em Dezembro 15

Pai,

Tenho pensado muito em ti ultimamente…

Em ti, em nós…nós os dois, na família, na Mãe, na Géninha …em nós. Tenho ido ao baú para ver fotos antigas. Fotos onde tu apareces. A cantar o fado (como não podia deixar de ser…), a passear em família, nas festas com os teus amigos, enfim, a fazeres o que gostavas (meu Deus, como ainda me custa escrever no passado!).

Tenho pensado muito em ti ultimamente…

Em ti, em nós…nos teus cabelos grisalhos, na tua voz com aquela tez grave, no teu cheiro a after shave pela manhã, no teu caracter forte, impulsivo, na tua genica, na tua alegria, nas tuas convicções, em tudo! Tenho pensado em tudo. Lembro-me de quando me dizias quando eu ainda era um puto e não me portava bem: “Filho és, pai serás…um dia vais-te lembrar de mim e das minhas palavras…filho és, pai serás…”. Eu abanava positivamente a minha cabeça, mas na realidade não percebia muito bem essa história do “Filho és, pai serás.”…

Tenho pensado muito em ti ultimamente…

É que sinto tanta tristeza por não estares ainda cá. Sinto tanta solidão sempre que vejo um filho relacionar-se com o pai, sinto e penso “Também quero o meu Pai cá!”. Sinto que foste mas não foste descansado e ainda ias preocupado, ainda ias lamentado…e sinto que foi por minha causa. Foi por minha causa que a tua doença piorou…pensas que não sei?! Não foi a origem, mas com certeza provocou um acelerar grande do processo…

Hoje que sou Pai compreendo como deve ser duro ver um filho nas condições em que me viste…como deve ter sido dura a nossa primeira conversa em família acerca do meu “problema”! Ainda me lembro onde foi. Na praia em Peniche. Estava eu, tu e a Mãe dentro do carro. Fomos ver um pôr-do-sol…e eu estraguei a festa…como dantes, como sempre…

Como deve ter sido dura a nossa primeira consulta com o Dr, como deve ter sido implacável veres-me a ressacar de heroína…como deve ter sido duro as vezes que fugi de casa (não havia telemóveis na altura…), como deve ter sido duro veres marcas de seringa nos meus braços, nas minhas mãos, no meu pescoço…como deve ter sido duro veres-me a ressacar forte e feio! Uma vez estava a ressacar tanto ao pé de ti que dei um espirro…e borrei-me todo!

É impossível um Pai não pensar “Meu Deus, mas onde falhei?!”. É impossível não ser violento para a cabeça de um progenitor.

Tenho pensado muito em ti ultimamente…

Eu já tinha saído da clinica, mas via-se perfeitamente que não estava maturado, não estava preparado, precisava de ajuda, clarividência, orientação.

Queria que soubesses que está tudo bem comigo Pai. Que soubesses que tenho um filho lindo, uma mulher que verdadeiramente me salvou de morrer, que deu tudo por mim e deu resultado sabes? Ela transformou-me, fez de mim um homem melhor, preocupado com a família e não consigo próprio, com o seu umbigo. Mostrou-me que amar é dar…Dar sem esperar, sem exigir.
Sim, porque sem esta orientação eu acho que não tinha chegado lá. Tinha o corpo limpo, mas a cabeça não…tinha o corpo limpo, mas a cabeça vazia, sem ideias, sem intenções, sem sonhos, sem nada! Só com esqueletos negros e ar, muito ar. Correntes de ar e esqueletos negros…muitas! Muitos!

Tenho pensado muito em ti ultimamente…

Queria que soubesses que a minha vida profissional está bem, que deixei de fumar, que passei a fazer exercício físico com frequência, que tudo isso me faz tão bem à minha alma. Queria que soubesses que o meu filho também se chama João, como tu! Que tem os teus jeitos, os teus trejeitos, que visto de trás é parecido contigo, tem o teu andar malandro e de marialva…Pai! Também é impulsivo, sensível, brincalhão e gozão…como tu!

Ver-te no cemitério não me chega…estás tão perto, mas também tão longe! É tão estranho ver uma foto tua no cemitério, tão estranho…ainda mais quando a foto era a cores e com o passar dos anos fica a preto e branco…simbólico no mínimo.

Tenho pensado muito em ti ultimamente…

Ultimamente tenho sentido mais tudo isto, pois lamento muito que só tenhas visto a 1ª parte deste filme. A 2ª parte tem sido muito mais serena, muito mais calma e tu merecias estar cá, merecias ter visto depois a 2ª parte. Penso que não foste descansado, não foste totalmente descansado e todos os dias penso numa maneira de te dizer, de chegar a ti, de te informar que está tudo bem Pai.

Pai, está tudo bem…está tudo bem.

Obrigado "Paulo" por esta partilha de autenticidade e exemplo. 
Boas Festas para as famílias dos Paulos e das Paulas.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Liberdade para aprender

Reprimir reverte para muitos. Aprender serve para todos.

Liberdade para aprender, é um movimento pode levar a muitas pessoas conhecimentos úteis para a sua saúde e seu bem-estar.

Se usar a sua liberdade para ler e partilhar, contribui para a difusão do pensamento livre, criativo, e não oficial.


Em Portugal muitos cidadãos estão sujeitos a uma significativa pressão de estímulos para o consumismo.

O álcool é a substância psicoactiva cujo mau uso em Portugal mais danos provoca no consumidor, na família, no meio laboral, na estrada, na comunidade.

O mau uso e abuso de álcool, nomeadamente entre jovens, crescente e despudorado desde o início deste século, é prova das carências preventivas e da necessidade de irmos mais longe para as remover.

Que conhecimento? Que relação?

Qual o saber do consumidor sobre a relação que, sem dano, se pode criar com as bebidas com álcool?

Pergunte a um amigo, a um profissional de saúde, quais são as recomendações para o consumo de álcool?

Moderação?
Moderadamente? 


Moderado ou muito moderado ou até inexistente em muitas pessoas, tem sido o conhecimento partilhado sobre Educação e consumo de bebidas com álcool.

Moderado ou muito moderado ou até inexistente em muitas pessoas, tem sido o conhecimento partilhado sobre as inverdades associadas ao consumo de bebidas com álcool.

E, com frequência, a responsabilidade ou culpa pela ausência do conhecimento e pelos danos decorrentes do maus uso é sobretudo ou em exclusividade ... do consumidor ignorante. 

O conhecimento que temos ou que não temos resulta do que foi feito.

É preciso mudar: não chega a boa vontade. É preciso estimular o conhecimento, partilhar o saber, para que cada cidadão beneficie de mais responsabilidade.

Reprimir reverte para muitos. Aprender serve para todos.

Obrigado pela visita

https://www.facebook.com/maladaprevencao.drluispatricio/

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sábado, 3 de outubro de 2015

DROGA em PORTUGAL? O que se disse e diz "lá fora", o que temos e o que temos que mudar

DROGA em PORTUGAL
 A Prevenção, Tratamento, Recuperação
Redução de Riscos que temos
o que se disse "lá fora
2009

2011

Cada cidadão fará a sua leitura. 

Mas a situação que vivemos

decorre da Prevenção e Educação,

da autenticidade que temos vivido

nos anos precedentes


Depois de grandes e notáveis mudanças,
vieram outras mudanças, também na autenticidade.

E mesmo que haja poderes (temporários) que se revelem satisfeitos, 
quem trabalha (permanentemente) no terreno
sabe bem a autenticidade do que se faz constar,
para o bem e para o menos bem



Este texto está adaptado da entrevista ao jornal Açoriano Oriental de 15 de Junho 2015
Para se falar a verdade toda sobre a Prevenção temos que conhecer a formação dos agentes de prevenção, saber quantos estão capacitados, a sua competência técnica e pedagógica para intervir com crianças, adolescentes, adultos e consumidores. Há profissionais esforçados com conhecimento e prática, e também há desequilíbrios e assimetrias na qualidade. Qual é a verdade na selecção a nível local, regional, nacional e internacional? Os assessores e colaboradores são pagos pela competência técnica ou por conveniência politica?
A sedução para o consumo abusivo é enorme e a pedagogia para o consumo é quase inexistente. A proporção da oferta e uso de álcool é inversa da prevenção do mau uso. Quem está satisfeito com a recomendação “consumir com moderação”? O que é isso?
E se antes dos 18 anos o consumo de álcool não se recomenda por motivos de saúde, porque existiu em Portugal quase durante 3 anos a lei que protegia a venda de cerveja e vinho a maiores de 16? Que resultou desta lei e quantos consumidores se fidelizaram? Empurrar o mau uso para a cultura e acusar quem vende fora da lei, é negar que falta responsabilidade e Educação para a saúde.
Em Portugal iniciou-se há mais de 10 anos o abuso público de álcool, também por menores de idade. Vivida como modernidade e até promovida com o apoio de autoridades, esta moda chegou depois de ter acontecido em Espanha. Não soubemos, não pudemos ou não quisemos prevenir?
São largos milhares os consumos de risco em mega festas de Verão, de Inverno, de iniciação, de finalistas, pequenas e grandes, em bares e na rua. São “normais” as intoxicações e intervenções de emergência e graves os danos.
E face ao sucesso no consumo de tabaco ficamos informados lendo a recomendação “Fumar mata” ou vendo imagens de danos?
Para o consumismo de comportamentos de risco, é vantajoso que o consumidor tenha poucos conhecimentos sobre saúde: mais incautos mais consumidores. Quem consome procura algum prazer e até o aliviar algum mal-estar, mas mal informado é melhor manipulado.
Há quem defenda a ideia de que o consumidor é o responsável pelo aparecimento da dependência, e o responsável pela solução do problema. Mas onde estão os ensinamentos e a educação para saber viver na sociedade de ofertas de comportamentos de risco?

No âmbito da redução de riscos após a notável melhoria no início do século, constatam-se perdas na quantidade e assimetrias na qualidade. Continuamos a não dispor de filtros para comprimidos, nem ampolas de naloxona, foi lamentável o desperdício de preservativos e é lamentável que continuemos sem facultar a quem se injecta, locais fixos ou móveis para consumo asséptico, como está previsto na lei desde 2001.



Em Portugal também foi uma vergonha a procura cega de substâncias sintéticas desconhecidas, o acesso a menores de idade e o consumo gerador de tanto sofrimento durante três anos de livre comércio, e ainda o que não se disse sobre este assunto…, agora muitíssimo mais reduzido, mas não resolvido. O md prolifera.



Em Portugal as estruturas da saúde continuam a não reconhecer a existência da especialidade, nem da sub-especialidade nem da competência técnica em patologias aditivas. Existe publicidade e há dezenas de serviços públicos e privados para a “prevenção e tratamento da droga”. Será uma droga de serviço um serviço onde não haja competências técnicas reconhecidas? Se a droga é um engano, assim podemos ser enganados.
E mesmo que o engano tenha origem nas autoridades, não deixa de ser engano. Resta saber se autoridades são ingénuas, engenhosas no uso das verdades e dos números ou, sabedoras e eticamente respeitáveis.
Nos tempos actuais autoridade significa mais o poder de usar o poder, ou a responsabilidade no bom uso do poder?
Recentemente um funcionário europeu disse-me que não havendo especialistas os governos nomeiam peritos. Assim já acontecia antigamente e assim ainda acontece.
O que existe nem sempre é o que se apregoa existir, quer dizer que há truques e pode-se falar a verdade mas a verdade da conveniência e não toda a verdade.
Uma significativa campanha atribui a Portugal o grande sucesso relacionado com a lei da descriminalização do consumo (2001). Nessa época já ninguém era preso por consumir “droga”, há que dizer a verdade. 
Sem por em causa a necessidade de legalizar a descriminalização, nomeadamente para combater o estigma existente em algumas ou inúmeras cabeças que não trabalhavam com doentes, há que reconhecer onde, na realidade,  esteve a grande mudança. Ou melhor dizendo, as grandes mudanças: o alargamento da rede de tratamento, incrementado desde 1987 e a lei de Redução de Riscos (2001) e suas aplicações, 

O sucesso então alcançado na saúde relaciona-se de facto com a melhoria do aceso ao tratamento, com acções decorrentes da lei da redução de riscos (2001), intervenções na exclusão social, apoio psicossocial, programas de troca de seringas, programas de metadona em baixo limiar, despiste de patologias associadas e encaminhamento para tratamento. 
Foi este o sucesso
Mas infelizmente a assimetria na qualidade dos serviços prestados tornou-se uma realidade...
No âmbito dos tratamentos há realidades que são razões para preocupação.
·       Há doentes, familiares e profissionais de saúde que continuam a relatar situações de serviços “especializados”, públicos e privados, onde não existe médico, ou médico com competência, ou onde há excesso de doentes sob responsabilidade de um só médico, ou onde é insuficiente o tempo médico para os doentes.
·       Há quem não tenha consulta médica durante meses, mas esteja medicado diariamente com metadona ou receba a receita de medicamentos, o que permite compreender melhor o mau uso de medicamentos e o desvio para o mercado negro.
·       Há quem esteja mal medicado e vá mercado negro comprar medicação complementar.
·       Há doentes insuficientemente medicados e que para se sentirem menos mal fazem consumo de álcool ou de outras substâncias.
·       Há consumidores de benzodiazepinas adquiridas com ou sem receita médica nomeadamente de comprimidos de midazolam que injectam na veia depois de esmagados e diluídos em água.
·       Há doentes e familiares que dizem conseguir obter medicamentos sem a necessária receita médica obrigatória.
·       Há serviços em que, são ministrados fármacos sem existir consulta pelo médico (usurpação de funções).
·       Há quem não trate as doenças da pessoa, mas “trate a droga”..
·       Continua a haver quem afirme ter estado internado em comunidades terapêuticas onde na realidade não havia médico.

Há prisões, onde as carências e insucesso no programa de políticas de redução de riscos foi e é uma vergonha.


É PRECISO MUDAR. 
MUDAR O QUE NÃO ESTÁ BEM É POSSÍVEL E NECESSÁRIO.



domingo, 16 de agosto de 2015

PARA QUEM QUER consumir menos álcool

Em 10 de Setembro de 2011 coloquei esta mensagem no blog maladaprevencao.blogspot.com/.


Entretanto em Portugal, de 2013 a 2015, foi legalizado o acesso a bebidas alcoólicas fermentadas, cerveja e vinho, a pessoas, após os 16 anos. Excelente oportunidade certamente aproveitada a nível nacional para, sem conhecimento acrescido, fidelizar muitos jovens aos interesses dos mercados nomeadamente da cerveja, no consumismo. Uma droga de atitude.

Em 2015 regressou o poder do controlo externo através da lei reformulada pelos homens que a fizeram talvez por simpatia para com os menores de idade, talvez por falta de boa vontade para com alguns educadores, talvez por outros interesses, ou até talvez por excesso de ignorância, (no que não acredito). 
Mas constato, pode acreditar, que em 2015 o nível de ignorância de muitos consumidores de todas as idades face ao álcool continua a ser desmedido.
Se a todos os níveis de intervenientes ninguém os ensinou sobre o consumo de álcool, se não aprenderam a defender a saúde e a promover a saúde, como podem fazer bem feito?

Perante a ignorância de tantos e porque a necessidade de saber mais continua actual, recoloco esta mensagem para quem quer consumir menos álcool. 
Talvez possa interessar a alguém de quem se goste.

Continuação de um bom Verão 2015 e não deixe de pensar e aprender para bem escolher.

Saudações
Luís Patrício 




 ÁLCOOL ou ETANOL

Uma substância neurotóxica, muito integrada na nossa cultura e muito bem promovida comercialmente










É uma substância psicoactiva muito fomentada na sociedade de consumo.


É possível fazer bom uso de álcool com determinadas condições.



mau uso de bebidas com álcool é socialmente bastante tolerado e a promoção do mau uso é evidente para quem tem suficiente capacidade e liberdade para ver.

Raramente encontramos pessoas que foram ensinadas a consumir bebidas com álcool fora do patamar de risco.



Continua a ser pouco frequente encontrar profissionais preparados para ajudar a compreender a relação de menor risco que se pode ter com as bebidas com álcool.

Sabe-se que para melhor defender o desenvolvimento cerebral, o álcool não deve ser consumido antes dos 18 anos de idade.

Continua a ser por demais evidente a carência de conhecimento adequado no consumidor de álcool e a carência de saber nos restantes membros da nossa comunidade.

Se desejar …

Partilhe este texto com pessoas de quem goste,

para que possam estar mais informadas e assim protejam melhor a sua saúde.


 

Beber menos álcool é possível

Para quem quer consumir menos álcool




1.    Pela sua saúde e bem-estar da sua família, que nunca falte água na mesa onde come

2.    Mate a sede com água: rejeite a fraude de matar a sede com bebidas com álcool

3.    Não beba bebidas com álcool por acaso

4.    Não participe em rodadas

5.    Não participe em borracheiras

6.    Se decidir tomar bebidas com álcool, coloque previamente um limite e:

       a.  Informe-se com o médico sobre as quantidades que pode consumir, evitando o patamar de risco (diferente entre as pessoas)

       b.  Beba sempre devagar, sem pressa

       c.  Beba golos pequenos

       d.  Nunca “vire” copos: recuse “emborcar

       e.  Escolha bebidas de menor graduação alcoólica (cerveja, vinho)

       f.   Evite consumir bebidas alcoólicas destiladas

      g.  Entre os golos, pouse o copo, tire a mão do copo

      h.  Faça outra coisa qualquer, enquanto bebe

      i.    Não acompanhe a bebida com salgados, porque aumenta a sensação de sede e a necessidade de consumir líquidos

      j.    Respeite a sua pessoa: lembre-se do limite do consumo que marcou

      l.    Regularmente fique 3 dias sem tomar qualquer variedade de bebida com álcool

7.    Celebrar com álcool não é obrigatório: é um mito cultural e um interesse comercial

8.    Rejeite qualquer bebida com álcool em jejum ou para a sossega, antes de se deitar

9.    Pense nos benefícios em mudar a sua atitude, face ao uso da bebida com álcool

10.     Registe as alterações que já tenha sentido

11.     Recorde-se das razões para manter a sua mudança de atitude

12.     Se não atingir os objectivos desejados, reavalie a situação com o seu médico



Adaptação Luís Duarte Patrício 2011                                                              

domingo, 12 de julho de 2015

CANÁBIS LEI e PEDAGOGIA PARA A RESPONSABILIDADE


CANÁBIS LEI e PEDAGOGIA PARA A RESPONSABILIDADE

Na sociedade consumista a promoção do consumo é violenta e tem resultado

CONSOME-SE IMENSO DE TUDO, LEGAL OU ILEGAL. A CANÁBIS TAMBÉM

A chamada luta contra a droga, contra a oferta do que está ilegalizado tem um eco estrondoso e envolve meios muito significativos. E no âmbito do controlo do legalizado envolve meios significativos. Este também chamado combate têm sido uma área do sucesso de muitos políticos junto de quem tem parco saber sobre consumo de comportamentos de risco.

Pelo contrário, a promoção da pedagogia para responsabilidade do cidadão e do político, a Educação Cívica e a Educação para a Saúde que ensina e responsabiliza o não consumidor e o consumidor, em regra não tem eco ou tem só ocasionalmente. Tem sido, face às necessidades, um esboço ou caricatura da Prevenção. Muitas iniciativas com frequência envolvem insuficientes ou ridículos meios, por vezes meios ridículos. Também acontece haver projectos ridicularizados ou até ignorados.

Mas é inegável a realidade do aumento da oferta e do aumento de consumos de comportamentos de risco com e sem substância legalizada ou ilegalizada.

E também continua a ser uma realidade não se ensinar a consumir. É sabido que com frequência o consumidor abusa do que consome e sendo substancia ilegal nem sabe bem o que consome.

É neste Portugal onde vivem pessoas de diversas gerações que foram ou são consumidoras de canábis maioritariamente associada a tabaco.

E é neste Portugal onde face ao consumo de canábis a redução de riscos para a saúde não tem sido devidamente cuidada.

É inegável a ignorância de consumidores de canábis e de seus familiares apesar de ter aumentado neste século a fidelização de consumidores.

Há consumidores jovens que frequentam estabelecimentos de ensino ou que estão fora do ensino, consumidores adultos que trabalham e consumidores que estão sem trabalho.

Uns são profissionalmente pouco diferenciados outros são profissionalmente/socialmente diferenciados: gestores, profissionais do direito, do ensino, da saúde, da política.

É tempo de falar toda a verdade para que todos, consumidores e familiares, não consumidores, profissionais e políticos, possam ver bem melhor a realidade e não ficar pela realidade maquilhada ou até manipulada.


Saiba que:
1.      Nem todas as espécies de planta de canábis são iguais. A mais comum e que produz mais substâncias psicoactivas é canábis sativa. Produz centenas de compostos químicos, dependendo do clima, variedade e tratamento.
2.      Nem sempre a canábis foi declarada ilegal pelos políticos.
3.      Foi por decisão política que a canábis foi ilegalizada no Brasil (1932) antes de o ser nos EUA.

Atendendo à dimensão crescente do seu consumo por humanos é preciso pensar, ultrapassar a negação ou o tabu e falar sobre estes assuntos.

Já estamos atrasados perante um consumo banalizado e com riscos aumentados.

Quem pensa vive e quem previne antecipa.

Obrigado por ler e divulgar. Luís Patrício


Melissa Lopes, jornalista do jornal I fez um trabalho sobre Canábis que publicou e cuja leitura recomendo para melhot conhecimento e para estimular o pensamento.
Para este trabalho contribuí com as respostas às perguntas que me colocou. E com o devido acordo, aqui divulgo a totalidade das minhas respostas.

- É a favor da legalização da canábis? E porquê?
Desde os anos 60 aumentou no mundo ocidentalizado o número de consumidores de canábis.
Muitos antigos e actuais consumidores são dirigentes da cousa pública e dos mercados.

O sucesso no consumo é uma realidade e o interesse económico é enorme.

Em Portugal é fácil comprar resina (tiras de pólen, haxixe em bolota). Há menos oferta de erva importada ou nacional.

Nos últimos 15 anos aumentou a oferta e o uso entre adultos menores de 70 e jovens adolescentes maiores de 12, seja na festa local ou festival nacional, de dia num jardim, pátio e bar de escolas do ensino secundário, técnico, universitário, na noite junto do restaurante, bar, discoteca, na privacidade do domicílio, por tudo o que é sítio onde haja consumidores e em claques.
Esta realidade é indesmentível, apesar de hipocritamente ser negada por falta de coragem, para alimentar a demagogia do sucesso, do está tudo bem, para servir um poder sem vergonha que não quer notícia nem “ondas”, excepto quando o problema lhe entra em casa.

O consumidor pode desejar a situação de embriaguez canábica, a pedra, muito comum e que envolve riscos que deve minimizar, como seja não conduzir.
Mas raramente apenas consomem canábis: álcool e tabaco estão sempre  ou quase.

Do uso de canábis podem não ficar danos, o que terá acontecido com a maioria dos consumidores.
E se com muitos não ficaram danos, com outros pode ter havido sequelas, seja a perda da motivação, sejam alterações psicóticas (prévias, concomitantes ou posteriores?).
São estas pessoas que beneficiam com o tratamento. E a causa dos danos está na substância, no consumidor ou nas misturas?

Quem compra ilegal agrava os riscos até de ser aldrabado.
A resina e a erva podem ser misturadas com mais substâncias agressivas.
Sem promover o uso danoso de substâncias e face à desbunda actual, há que perceber que o consumidor que produz para uso pessoal pode reduzir diversos riscos.
Defendo que a produção de canábis para uso pessoal seja regulamentada, devidamente acompanhada de informação honesta sobre riscos e danos no seu uso.
Há muito a fazer para ultrapassar a ignorância do consumidor sobre cannabis, álcool e tabaco.

 - Quais são as vantagens do seu uso na medicina?

Há que aproveitar os benefícios da canábis para uso médico na medida em que se evidencie a sua eficácia no tratamento de doenças ou no alívio do sofrimento.


Quais os riscos do aumento da substância THC na canábis que tem sido registada nos últimos anos?

A produção de variedades com maior concentração não é nova, é crescente. Escrevi isso nos livros desde os anos 90. Importa separar o que é esse aumento do que é a associação com outros produtos que o consumidor compra.

O consumo alargado existente traduz o sucesso da oferta e da procura e a carência de anos em educação e prevenção.

Não falar de assuntos que preocupam os cidadãos é tratá-los com arrogância ou desprezo, ou pode ser apenas uma atitude de alinhamento.

Luís Duarte Patrício, autor de:
·          Os Profissionais de Saúde e a DrogaLisboa: Colecção Projecto Vida. 1990.
·          Droga de Vida, Vidas de Droga. Lisboa: Livraria Bertrand. 1995.
·          Face à droga com Re (agir). Lisboa: Ed. Olve. 1997.
·          Droga para que se saiba. Porto: Livraria Figueirinhas. 2002.
·          Droga. Aprender para Prevenir. Lisboa: Edição Dias Patrício. 2006.
·          Tratamento da dependência de heroína. A manutenção opióide. Lisboa: Edição Dias Patrício. 2008.
·          Políticas e dependências. Álcool e (de) mais drogas em Portugal, trinta anos depois. Lisboa. VEGA 2014




Melissa Lopes, jornalista do jornal I
http://ionline.pt/400931?source=social                                                                      

Legalização. A revolução da canábisjá começou
A canábis continua a ser a droga ilegal mais consumida e também a que movimenta mais dinheiro em todo o planetaGetty ImagesMELISSA LOPES06/07/2015 19:35:35
Depois de meio século de políticas proibicionistas, o mundo começa a fazer inversão de marcha e a permitir que a canábis seja consumida de forma legal.
No mesmo dia em que em Portugal os adolescentes com menos de 18 anos deixavam de poder beber todo o tipo de álcool, no estado do Oregon, nos EUA, festejava--se a nova lei que permite que qualquer americano com menos de 21 anos consuma e possua canábis, desde que o faça em propriedade privada. Comprar e vender marijuana, contudo, só será legal no próximo ano, quando o mercado for licenciado, mas o Oregon já é o quarto estado a legislar neste sentido, depois do Colorado, da Washington e do Alasca. 
O tiro de partida para esta viragem porém foi dado fora dos Estados Unidos. O Uruguai foi o primeiro a lançar-se na legalização da canábis. Em 2013, Pepe Mujica conseguiu que a lei fosse aprovada e a partir de então qualquer adulto com 18 anos pode fumar charros, cultivar até seis plantas por habitação e, mais recentemente, até comprar até 40 gramas nas farmácias. 
Mudança de paradigma São só alguns exemplos que nos mostram que o paradigma está a mudar. O maior sinal até vem das Nações Unidas, que tem vindo a apelar a uma inversão na política para alcançar um “mundo sem drogas”. A Comissão Global de Políticas para as Drogas é clara nesta matéria: a estratégia proibicionista fracassou. Houve aumento do tráfico e das apreensões, o que não representou um recuo no consumo nas subs-tâncias ilegalizadas.
A canábis continua a ser a droga ilegal mais consumida e também a que movimenta mais dinheiro em todo o planeta. Só na União Europeia este mercado representava, em 2010, entre 7 e 10 mil milhões de euros, o principal argumento para legalizar a marijuana. Entre os defensores estão pesos pesados, como é o caso do antigo Presidente Jorge Sampaio e de vários ex-chefes de Estado da América Latina – Fernando Henrique Cardoso, Ernesto Zedillo, César Gaviria, Javier Solana – e ainda o anterior secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Juntos defendem novas vias para enfrentar este fenómeno.
“Chegou a hora de instituir uma nova estratégia internacional para o século xxi”, escreveu Jorge Sampaio num artigo assinado com a ex-chefe de Estado suíça Ruth Dreifuss. Os dois notam que, apesar de serem cada vez mais os países a apelar ao fim da “guerra às drogas”, esse consenso não tem sido suficiente para que Bruxelas chegue a um acordo sobre pontos essenciais. “Advogamos fortemente o fim da criminalização dos consumidores de drogas e apelamos aos países para que continuem a explorar as diferentes opções em termos de saúde e redução de riscos, inclusivamente regular de maneira rigorosa certas substâncias que hoje são ilegais”, sublinham.
Outras prioridades Não estão em causa mais investimentos, mas sim a “reafectação dos recursos disponíveis a despesas mais eficazes e equilibradas”, defendem, usando como exemplo os 100 mil milhões de euros gastos anualmente na repressão policial que poderiam ser canalizados para programas de saúde e sociais, que poderiam “salvar a vida a milhões de pessoas”. 
A ONU espera no entanto que em 2016 – ano em que a organização reúne nova cimeira sobre drogas – os países favoráveis à mudança sejam em número suficiente para mudar o paradigma político e quebrar o consenso das medidas proibicionistas que vigoram há 50 anos. 
Nos EUA a decisão passou directamente pelo povo, coincidindo a alteração da lei com a vontade que os americanos expressaram em consultas populares. Desde que o Colorado regulamentou o mercado da canábis têm entrado milhões nos cofres do Estado, resultantes dos impostos (12,9% na venda e 15% sobre o consumo). 
Mentalidades A mudança espelha uma viragem na mentalidade que dominou as últimas duas décadas. Num inquérito feito pela agência de sondagens Gallup, em Outubro de 2013 a maioria dos americanos (58%) consideraram pela primeira vez que a marijuana devia ser legalizada. Em 1992, por exemplo, apenas 25% defendiam a sua legalização. E até 2016, Massachusetts, Califórnia, Missouri, Havai, Maine, Nevada e Arizona deverão optar pela legalização.
A Jamaica, país com uma cultura da marijuana enraizada, só este ano legalizou a posse, o consumo e o cultivo para fins medicinais, religiosos e recreativos. Mas com condições: cada caribenho pode possuir até 56,6 gramas e cultivar até cinco plantas por habitação. O país, que está sob assistência do FMI até 2017, espera obter lucros de uma indústria com “grande potencial”, desenvolvendo nomeadamente o turismo de saúde devido às propriedades medicinais que esta planta oferece.
Fins terapêuticos Em muitos outros países já é permitido o consumo de canábis mas apenas para o alívio de sintomas de certas doenças, como cancro, Parkinson e esclerose múltipla. O Canadá foi o primeiro a instituir o uso de canábis para fins terapêuticos. Na UE, a Holanda (pioneira na Europa com a autorização do uso recreativo nas coffee shops), mas também na República Checa, em França e na Roménia os doentes crónicos podem comprar, com autorização médica, medicamentos à base de marijuana e até cultivar as suas próprias plantas. Nos EUA são 23 os estados que permitem o uso terapêutico desta substância.
Em Portugal, onde os consumidores não são criminalizados desde 2001, a canábis não é permitida nem para fins recreativos nem medicinais. Vários especialistas, no entanto, têm demonstrado que o uso do extracto de canábis é benéfico para aliviar a dor e atenuar os efeitos da quimioterapia. O psiquiatra Luís Patrício, especialista no tratamento da toxicodependência, concorda com a regulamentação da plantação de canábis para uso pessoal mas “devidamente acompanhada de informação sobre riscos e danos resultantes do seu uso”, que podem ir “da depressão, a perdas de memória e a alterações psicóticas”. 
E o problema, avisa, não está só no aumento da concentração da THC, mas também na mistura de substâncias agressivas. “Quem compra ilegal agrava os riscos de ser aldrabado. A erva e a resina podem ser misturadas com substâncias mais agressivas”, alerta, afirmando que o consumidor, ao cultivar para consumo próprio, estará a diminuir esses perigos. No entanto, há uma negação de uma realidade que é “indesmentível”. Nos últimos 15 anos [desde a descriminalização] houve um aumento da oferta e do uso entre pessoas dos 12 aos 70 anos.

Luís Patrício vai mais longe e defende que esta realidade tem sido “hipocritamente negada por falta de coragem, para alimentar a demagogia do sucesso, do está tudo bem, para servir um poder sem vergonha que não quer notícia nem ondas”. O consumo alargado actual traduz o êxito da oferta e da procura e a carência de anos em educação e prevenção, remata o psiquiatra.