domingo, 5 de fevereiro de 2017

ABUSOS, ESCRAVATURAS & IMPACTOS Dependência de substâncias e actividades sexuais




ABUSOS, ESCRAVATURAS & IMPACTOS

Abuso e dependência de substâncias e actividades sexuais com riscos acrescidos

FRANCISCA, a FLOR
A cor da pele, da vida e dos consumos

Vídeo enviado ao Simposium Internacional

ESCRAVATURA
Qual o seu impacto na psicologia das populações?
Presidente
Prof Doutor Charles Nicolas

Martinique Guadelupe Outubro 2016

Homenagem aos que sofrem, aos que nos ajudam a melhor ajudar 

A jornalista Raquel Lito, interessou-se pelo esforço de Francisca e pela boa evolução do tratamento e, publicou o seu trabalho na revista Sábado.
Com o seu acordo, publico parte das respostas às questões que me colocou, a propósito do trabalho com pessoas com comportamentos de risco, associando abuso de substâncias e actividades sexuais.

RL - Como teve conhecimento deste caso-limite?
LP- Há muitos anos que ajudo pessoas que vivem condições de exclusão. Se um doente que ajudamos se sente bem e fala, outros aparecem. É normal tratar pessoas com comportamentos de risco associando consumo de substâncias droga e actividades sexuais. 
Tive oportunidade de ajudar a criar novas formas de intervenção na exclusão. Esta actividade de ajuda aumentou bastante, desde 1987 com a criação do Centro das Taipas no centro de Lisboa. Muitas das nossas doentes prostituíam-se na área, da Avenida da Liberdade ao Bairro Alto e em outras zonas da cidade.
E, em 2001, fizemos em Lisboa um significativo aumento de intervenção, com o programa na rua para redução de riscos, seis noites por semana, a Rota da Noite. Funcionou, desde o Técnico ao Restelo, para apoio a mulheres e rapazes que se prostituíam.
Ambos os casos são passado, do qual muito me honro. E destaco aqui o empenho de muitos colaboradores que ainda hoje nos estimam, monitores, técnicos psicossociais e assistentes sociais.
Há que lembrar que nesse tempo, apenas havia uma carrinha do Ministério da Saúde que intervinha à noite, apenas um dia por semana.

Sair das Taipas e continuar a ajudar

Fumar cocaína na rua em Lisboa. Foto LP
Em 2008 decidi deixar as responsabilidades de direcção do Centro das Taipas, por sentir crescente e indisfarçável desconsideração, criação de dificuldades (vulgo assédio moral), por quem mandava, orientava as estratégias e politicas. Negar a perda de qualidade e fazer de conta, garante lugares mas prejudica os doentes, condição que não aceitei. Mas logo escrevi a pedir para lá continuar a trabalhar como médico voluntário. Esperei largos, largos muitos meses até que fui autorizado a trabalhar voluntariamente. E trabalhei até que na consulta da semana a seguir ao Natal (2011), fui avisado por uma técnica que na semana seguinte, após o fim de ano acabava o meu voluntariado. Claro que não pude despedir-me de todos os doentes da instituição que ajudei a criar e dirigi por 21 anos. Mas alguns doentes, dos mais carenciados e que confiavam em mim, continuaram a receber os meus cuidados. Claro que não pude oferecer o meu trabalho a muitos, mas isso aconteceu e continua a acontecer, o que é natural na vida de um médico.

Continuar a ajudar

Lisboa. Para além das nuvens carregadas há azul - Foto LP
Posteriormente, por convite da Dr.ª Inês Fontinha aumentei a colaboração com O Ninho, http://www.oninho.pt/ ainda no âmbito do apoio a mulheres prostituídas, colaboração voluntária que mantenho.
Como em outras áreas da Medicina, uma pessoa doente que se sente ajudada mobiliza outra.
Nos últimos seis anos destaco o apoio a pessoas dependentes que se prostituíam: três raparigas bastante jovens, duas mães e duas avós.
A Francisca ou Maria foi-me referenciada há cerca de dois anos por outra senhora que já trato desde há seis anos, e que me pediu para continuar comigo depois de eu sair das Taipas. Ambas compravam na rua medicamentos para aliviar o seu sofrimento. Ambas iniciaram o tratamento comigo.
A confiança vai-se estabelecendo. É comum assim acontecer em pessoas mais castigadas pelas vidas esforçadas.

RL - Tendo o Dr. acompanhado mais mulheres com perfil idêntico, o comportamento de Maria é expectável?  
LP- Lutar pela vida desde a infância, mudar significativamente de referências, deixa marcas. E em certas áreas psíquicas modifica o que seria desejável: a harmonia no desenvolvimento.
A subsistência conquista-se no dia-a-dia. Se o consumo de substâncias psicoactivas (legais ou ilegais) pode ser um “escape”, espécie de alívio para sofrimentos, a dependência que se instala é um calvário acrescido na vida destas mulheres, jovens, mães ou avós.
Naturalmente que eu e muitos outros colegas meus já ajudámos muitas pessoas a mudar de vida. As pessoas procuram tratamento para melhorar dos seus sofrimentos, melhorar a qualidade de vida.
Parque Eduardo  VII em Lisboa. Pela cidade há outros labirintos bem mais difíceis de percorrer. Foto LP.
Naturalmente que a Prevenção de Comportamentos de Risco, a Redução de Riscos associados a múltiplos comportamentos de risco, foram temas obrigatoriamente em reflexão durante o tratamento e recuperação. 
Consultas de inicio semanalmente, depois quinzenalmente. Contacto telefónico disponível
Evolução foi sendo desde início e progressivamente muito favorável.
Trata-se de um processo de elaboração. Há sempre quem faça projectos de mudança: para um dia, para o mês que vem, para o ano que vem. E acontece.
A esperança mobiliza, os receios podem estimular a prudência e o desejo de mudança.
Nas doenças de adição a recidiva é uma possibilidade. Se acontecer que seja daqui a 50 anos… Se for antes, cá estaremos para ajudar de novo a caminhar.
Outono em Lisboa. Foto LP


RL- Como descreve o seu estado de espírito na última consulta?
LP- Entusiasmada. Manifestou muita gratidão estima e emoção. “Agora sinto-me muito bem, graças a Deus conheci o sr dr, comecei a ver… Esta vida não pode ser para mim. Nestas vidas uma pessoa não pensa, anda fora. Agora digo estou bem, tenho que lutar pela minha vida, não sou velha, tenho que lutar sim…… Muito obrigado” (sorri, aperto de mão, baixa os olhos e deixa cair uma lágrima).





Em síntese
Exercer medicina, prestar serviço é um privilégio.
Medicina é Ciência, Arte e Humanismo. Educação para a Saúde e Bem-estar são conquistas que deviam estar ao alcance de todos os cidadãos. Todos somos iguais, mas gerimos o que temos de forma diferente. Há quem tenha pouco ou nada, quem desperdice, quem seja mais bafejado e ainda quem valorize a Família e Amigos. 
São muitos os médicos que, pelo país, exercem medicina em benefício de quem deles necessita oferecendo o seu trabalho para além do seu horário e também cuidando de quem viva na exclusão (miséria, pobreza e pobreza envergonhada).

Em Portugal - O que falta fazer

+++Copos & Noite. Tá-se bem Foto LP. 
RL- O que falta fazer no apoio a toxicodependentes nestas circunstâncias?
LP - Há muito a fazer, nomeadamente anular um desinvestimento e melhorar muito a qualidade e condições de trabalho.
Em Portugal desde há 12 anos, em minha opinião, vimos a retroceder bastante no apoio e recuperação de pessoas doentes nestas circunstâncias e noutras.
A falta de satisfação de quem trabalha com doentes com patologia aditiva e doenças associadas, patologia dual, tem sido uma realidade crescente, ainda que haja quem tente esconder ou atirar a responsabilidade para outros. Não haverá dirigentes instalados e em silêncio? Quem se cala não incomoda.
Escadas de chuto. Lisboa. Foto LP
Mas há muitos profissionais que estão insatisfeitos desde há muitos anos. Em Portugal muitos estão desmotivados. E de há muito que há quem receie falar, com medo de que uma mudança ainda piore a sua situação.
Há ainda quem trabalhe muito, bastante mais do que devia e há também os que falam mas não fazem muito…ou não estão lá.

São os doentes e os profissionais do terreno quem melhor reconhece como que foram e como têm decaído serviços públicos e ong que outrora ajudaram muitas pessoas doentes, familiares e profissionais em formação.

Charro sempre que se queira. Qualidade? Importa? Foto LP 
Nos Centros de Saúde das ARS, a integração das equipas de tratamento de patologias aditivas deveria ser muito melhorada, reforçada com muito mais profissionais e médicos com competências. Este modelo de proximidade é muito útil para os doentes. E a existência de boas integrações em zonas diferentes como por exemplo em unidades do Alentejo ou do Norte, são prova da utilidade na integração.
Os serviços de psiquiatria e saúde mental, felizmente, cada vez mais estão a assumir as suas responsabilidades no tratamento de doentes com patologia dual.

Os Centros de Saúde, com todas as suas valências são a estrutura base de maior proximidade de acesso e tratamento. A ligação, a inter-acção com os serviços de saúde mental é obrigatória. Que apoio têm tido estas estruturas?
Quem é que está muito satisfeito?

Recriar em Portugal, em 2017 um serviço rede vertical para a droga / patologias aditivas seria reforçar o estigma, recriar lugares protegidos, não seria cuidar melhor da saúde dos doentes: muitos doentes são policonsumidores e têm outras patologias associadas. Quem tem todas essas competências? Voltamos ao jogo do empurra para lá porque não é daqui?
Em Portugal, pertencem à história os serviços estigmatizantes para a lepra, tuberculose, droga, doenças venéreas, dispensários de saúde mental. Hoje as respostas estão integradas nos serviços.

E em estruturas não-governamentais quem é que garante a qualidade de serviços publicitados? E são todos prestados?

Há que ter coragem para realçar as necessidades dos doentes e de suas famílias em troca de outros interesses de outros "actores sociais". Recordo que em Portugal não há especialidade de Medicina das Adições. Não raramente são contratados profissionais como se fossem peritos que não têm nada de peritagem, não são especialistas em abuso de álcool, cocaína, heroína, álcool, tabaco, vários medicamentos de abuso, canábis, sintéticas legais e ilegais, dependências sem substância, etc, e toda a patologia dual, psicopatologia e patologia infecciosa associadas.
Comprar na rua. Injectar na rua. Lisboa. Foto LP
 Há muito a mudar em Portugal, para melhorar a qualidade e estratégias de saúde. Basta do mesmo, de muitos anos de recuo para não repetir.

Há que conhecer toda a verdade, até nas prescrições de medicamentos subsidiados e que abastecem o mercado de rua e ir para além da simpática verdade da conveniência.

A mudança para melhor têm que acontecer. 

terça-feira, 15 de novembro de 2016



DESCRIMINALIZAÇÃO, 15 ANOS DEPOIS
Contributo para que haja mais verdade
Por Luís Patrício

Vou completar o que de bem tem sido divulgado na imprensa, com o que de menos bem tenho constatado, infelizmente.

A propaganda funciona, tem sido um sucesso. Mas a realidade infelizmente é outra.
  
Perdeu-se muito o respeito pelo crédito do saber e dos avanços técnicos. Como não há especialistas, sempre que necessário abundam “peritos”.

Contributo para a Srª Jornalista Joana Faria, do jornal Público,a quem agradeço o convite para colaborar no seu trabalho, bem como a publicação do que foi possível ser publicado.

Para conhecimento dos interessados, e com o acordo da jornalista Joana Faria, aqui deixo o texto enviado, na globalidade. 

Após anos e anos de conquistas de conceitos, quebra de estigmas e melhorias de respostas, ocorridas de final dos anos 80 até ao final dos anos 90 e início de 2000, esforço que se traduziu no enorme alargamento dos serviços de tratamento, na criação da lei da descriminalização e da lei de redução de riscos publicadas em 2001, passámos para um período bem diferente. Inicialmente de paragem (que é sempre um recuo) e depois para um período de sobrevivência planificada e cuidada de poder gradualmente mais afastado das realidades de quem sofre e até de quem trabalha. Em muitos locais a burocracia e até a falta de conhecimentos, gradualmente foi-se sobreposto ao mérito e à competência. E também gradualmente ressurgiu em Portugal a falta de vontade ou até o medo de falar e de ser prejudicado no emprego. Tudo isto confrangedor, mas verdade na minha opinião.

É público o meu desapontamento e a minha insatisfação pela não divulgação de toda a verdade.

Muito do trabalho técnico desenvolvido foi abafado ou prejudicado por finalidades estratégicas do benefício imediato, em prejuízo da estratégia de saúde integrada e prolongada. 
É real a involução dos últimos dez anos. As assimetrias de qualidade são inegáveis. Sabemos que sempre que se “perde” um profissional competente e se contrata alguém sem competência (mas útil para “tapar o buraco”), perde-se muito. 

A ausência de especialidade ou de competência reconhecida em patologia aditiva continua a ser o suporte para a nomeação de peritos, técnicos por vezes sem competência estrita nos assuntos, mas politicamente nomeados como peritos.

1 - Que balanço faz destes 15 anos? 

Na Declaração de Lisboa, de 1992, defendemos que o dependente é uma pessoa na condição de doente. De forma crua há que dizer que quando surgiu a descriminalização do consumo, que naturalmente defendi, já ninguém ia para a prisão por consumir um substancia ilegal. A lei anterior já não era executada plenamente, nem nas alternativas possíveis à prisão. Mas o estigma mantinha-se.

Mas é preciso dizer a verdade sobre as mudanças socio sanitárias ocorridas, nomeadamente desde 2000. A real redução da taxa de mortes relacionadas com consumo, por exemplo, por honestidade intelectual deve ser relacionada sobretudo com o alargamento ou criação dos programas de redução de riscos e com o aumento da oferta para tratamento nas diversas modalidades. Tal como a melhoria noutros indicadores. Na verdade isto não é consequência da lei da descriminalização como por vezes se insiste em dizer, mas do aumento das estratégias contra a exclusão social, na promoção do tratamento e da redução de riscos.

Quando lemos que antes da publicação da lei da descriminalização (2001) os doentes não procuravam ajuda médica com medo de serem denunciados à policia e presos (2011), ficamos no mínimo escandalizados com o método propagandístico. Lembremos a procura para tratamento por milhares de doentes, ocorrida desde o final dos nos 80. Mais oferta, mais procura.

Ficámos estupefactos quando lemos Lis Horta Moriconi 28/07/2009 Glen Greenwald conversou com o Comunidade Segura sobre a experiência portuguesa. Foi bem-sucedida? "Sim, em números absolutos, o abuso de drogas caiu". Isso aconteceu em Portugal. Eles têm campanhas de saúde reais, dezenas de milhares de crianças andando de bicicleta por toda Lisboa, por exemplo, e as campanhas entraram na rede educacional.

A propaganda funciona, tem sido um sucesso. Mas a realidade infelizmente é outra.


2 - Mais cedo ou mais tarde terá que haver mudanças nesta lei de 2001. 

Por exemplo, face à banalização do consumo de derivados da cannabis de origem desconhecida, haverá mudanças para reduzir os riscos a que estão sujeitos tantos consumidores de idades tão diversas.

Pelo menos, quando um significativo número chegar ao poder as mudanças acontecerão, para que haja menos riscos e sequelas

Mas mais importante é a necessidade do total respeito pela lei da redução de riscos, também de 2001 e de que muito pouco se fala, até porque muito do que permite e é necessário, continua sem existir. Os avanços que esta lei permite terão que ser respeitados e cumpridos na íntegra se queremos de facto melhorar e não recuar mais.


3 - Que falhas aponta à estratégia portuguesa em matéria de drogas e toxicodependência?

Vou completar o que de bem tem sido divulgado na imprensa, com o que de menos bem tenho constatado, infelizmente. 

Perdeu-se muito o respeito pelo crédito do saber e dos avanços técnicos. Como não há especialistas, sempre que necessário abundam “peritos”.

A ignorância nacional sobre álcool e o consumo abusivo é um escândalo.
Nos últimos anos vivemos 3 com abertura legal para venda a jovens após fazerem 16 anos. Impensável abertura comercial, com tudo o que a ciência já nos ensinava sobre álcool e cérebro jovem e com o que já era praticado na defesa da saúde em outros países.
Antes também não soubemos evitar o consumo massivo de álcool, embora na vizinha Espanha tal abuso na rua já existisse há muitos anos.

Também tivemos venda livre pelo país, e consumo libertário, de substâncias desconhecidas, sintéticas, actividade que apenas foi legislada anos depois do Observatório Europeu ter alertado em 2010, que o Reino Unido e outros países tinham ilegalizado algumas dessas substâncias.
Os graves danos em saúde acontecidos a consumidores, em todo o país, e de que ainda existem sequelas, nunca foram inteiramente avaliados e discutidos. O assunto foi abafado.

A Prevenção tem falhado e a actualização em Tratamento também tem muito a desejar. Perdeu-se muito em quantidade e qualidade. 

Há doentes que frequentam diariamente ou semanalmente serviços onde recebem medicação ou receitas médicas e que dizem ter muito reduzido número de consultas médicas por ano, ou que dizem ter consultas espaçadas e/ou muito “rápidas”. 

Há medicamentos subsidiados pelo Ministério da Saúde que são objecto de venda “na rua” e de consumo de abuso (desde há mais de 10 anos) e que continuam no mesmo patamar de fácil acessibilidade. 
  
Quem observar o que se anuncia existir em muita publicidade no mundo da droga em Portugal, e verificar a realidade dos serviços que são “oferecidos” ou prestados nesta área da saúde, seja em prevenção, seja em redução de riscos, seja nos múltiplos tratamentos, seja na recuperação, poderá ficar escandalizado com algumas situações. Afirma-se existir o que não existe. E se todos têm que ser autorizados pelo Ministério da Saúde, muitos serviços são inteiramente ou parcialmente pagos por dinheiros públicos.
Há doentes que afirmam que há estruturas onde praticamente “não viram” médico ou onde não médicos manipularam tratamentos farmacológicos instituídos pelos seus médicos.

Há ainda doentes que referem atitudes estranhas, como seja ter sido tratado em estruturas onde nunca estiveram, ou estar muito tempo, ou onde estiveram pouco tempo.

Também aqui me parece oportuna a pergunta: Na droga quem mais mente? O doente, a família, ou o dirigente?

Quanto ao controle de qualidade de serviços clínicos prestados, parece ser uma fantasia.

Mas parece ser também uma realidade a assimetria da qualidade das respostas clinicas e até a assimetria de procura e necessidades por parte de doentes. Há quem tenha pouca procura.

Quem trabalha e fala com doentes percebe que há locais em que é frágil ou insuficiente o envolvimento das estruturas locais de saúde do SNS. Há profissionais que não têm a formação que desejariam e que é necessária, ou que não receberam formação em patologias aditivas. E há quem tenha transitado das ET do IDT, para as ARS e que também não recebeu formação desejada em diversas áreas da adictologia, prevenção, tratamento e patologia dual, reinserção e recuperação.
Claro que cada profissional faz o que pode e alguns com enorme empenho. Ainda há quem tenha espírito de missão, mas é inegável a existência de insatisfação. Nos últimos dez anos muitos profissionais saíram e não foi com alegria, mas com tristeza e por alívio. 
Este facto ajuda a compreender as assimetrias reais na qualidade dos serviços prestados.
Quando não existe o que devia haver, prefiro que se diga a verdade e defendo que se diga que não há, em vez do faz de conta que existe.

Não se pode falar de sucesso na Prevenção do consumo de mau uso / Redução da Procura.
Neste século é real o incremento de abuso de álcool, cannabis, cocaína (s) como nunca, substâncias sintéticas, e dependências sem substâncias.

Em minha opinião temos vivido muito para agrado das conveniências políticas e muito menos no interesse da Saúde e Bem-estar dos cidadãos e da comunidade.

Sobre o que nos chega sobre o que se passa em muitas escolas e prisões no âmbito de Educação para a Saúde e Prevenção de comportamentos de risco, apenas transmito esta ideia genérica: só toda a verdade nos poderá ajudar a fazer a mudança necessária. Quem lá trabalha tem que ter muito mais competência nesta área, para poder fazer o que se devia ser feito.

Saliente-se que o que os alunos levam para a escola, reflecte a qualidade e quantidade de educação que receberam em casa. 


4 - Acha que Portugal deve dar mais passos em frente, avançando, por exemplo,  para a legalização da cannabis, não apenas em termo de consumo mas também de produção?

Há que rever o que existe mas, falando toda a verdade. Há muita informação pouco clara. Temos permitido que isso aconteça. Há portugueses que pensam que é legal a posse de determinadas quantidades de produto ilegal, mas não é. 
Há consumidores que dizem ter sido interpelados pelas autoridades e que ficaram sem o produto que foi apreendido, ou que ficaram sem o produto que foi pisado e inutilizado, ou que ficaram com o produto, ou que acabaram por consumir o que tinham. Alguns foram enviados para alguma CDT. Mas nem todos a respeitam, ou respeitam as suas propostas e nem todas as propostas são adequadas.

Muitos estrangeiros, mesmo até profissionais, estão convencidos que em Portugal o consumo de canábis é legal. E não é. E na Holanda também não é. Mas muita gente ainda pensa que sim. Há quem tire benefícios da ignorância. 
Há locais públicos onde se apregoa a venda de substâncias ilegais. 
Há passos em frente que já deviam ter acontecido, por exemplo na Redução de Riscos. Temos 16 anos de atraso.
Exemplos de carências que já deviam ter sido ultrapassadas:

Os serviços da droga deviam estar todos na Direcção Geral de Saúde, para que haja menos politiquice e muito mais estratégia organizada e competente. Outrora também havia serviços que reforçavam o estigma, lepra, tuberculose. Felizmente a integração foi feita o que ajudou a contrariar os estigmas e a melhorar o saber intervir. 
Os cuidados de saúde primários e a saúde mental têm que estar muito melhor articulados e assumir em pleno todas as suas responsabilidades. A Psicopatologia associada, a patologia dual é uma realidade que tem que ser encarada por todos.
Para melhorar o dia-a-dia de muitos consumidores com comportamentos de risco, os serviços de saúde tem que reconhecer que desde há mutos anos continuamos com carências por falta de estratégias.
Não temos máquinas para troca de seringas/agulhas 24 h por dia em locais onde fazem falta.
Não temos programas de redução de riscos 7 dias por semana em todos os locais reconhecidos de grande consumo.
Não temos filtros para quem injecta comprimidos.
Não temos seringas de uso único, fundamentais para evitar a sua re utilização.
Não temos Naloxona (medicamento salva vidas) acessível a quem o queira comprar.
Não temos salas para consumo higiénico e recatado, legisladas desde 2001.
Não temos programa de troca de seringas nas prisões, nem tratamento com opióide para todos os que têm necessidade.
Mas temos mais carências, que duram há demasiados anos, nomeadamente de conhecimentos. Mas a informação que continua a correr é que está tudo bem, melhor e controlado. Reconheço que a representação do sucesso que, estar muito alicerçada e projectada por muitos órgãos da mass media nacional e internacional.
E quando, nas situações reais que podemos visitar, algum jovem jornalista ou algum cidadão português ou estrangeiro é confrontado com a realidade, não esconde a estupefacção.

Em visitas com colegas estrangeiros aos bairros de consumo de Lisboa, cito expressões que ouvi:
“Não é isto que Portugal exporta – Colega peruano
“ Há coisa que existem, que se vêm, mas que não são escritas - Colega francês
“Perguntarei aos colegas do OEDT, em que cidade é que vivem- Colega italiano

Podem-se ver imagens e ouvir testemunhos em https://www.youtube.com/user/psimedicina

Tenho partilhado mais algum material para repor o equilíbrio nas verdades, mas reconheço que muitos critérios editoriais não têm permitido que tal aconteça. Tenho vivido algumas situações a que se pode chamar de censura.
Ainda há meses foi anulado por razões técnicas uma colaboração que fiz para televisão, num bairro de uso. E a intervenção oficial emitida foi a de que está tudo bem em Portugal.

Sei que falando incomodo, mas reforço que em minha opinião, é verdade que em Portugal existe uma verdade da conveniência. E que não é a da conveniência de quem sofre porque está em risco de adoecer gravemente ou porque já adoeceu.


Com estima e votos de boa informação, para que também seja formação.
Luis Patricio









PS 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Comportamentos aditivos, liberdade, políticas e saúde mental

Comportamentos aditivos, liberdade, políticas e saúde mental

ESTAR DEPENDENTE É UMA CONSEQUÊNCIA

Comportamentos aditivos, perda de liberdade, políticas e saúde mental

Evoluir é necessário

Os comportamentos de risco em saúde e bem-estar devem ter respostas adequadas, nomeadamente no âmbito da Educação e Saúde. Consumir é um comportamento com riscos. Ficar dependente é uma consequência, um dos danos a serem tratados por quem tenha competência. E a intervenção em Saúde Mental, para ter eficácia deve ser, naturalmente pluridisciplinar.

Em Portugal (e em outros países), durante muitos anos, o Sistema Oficial da Saúde rejeitou a ajuda a pessoas dependentes, incluindo a Saúde Mental. Apenas em1973 surgiu a 1ª consulta diferenciada no Hospital de St Maria, Serviço de Psiquiatria (Prof Dias Cordeiro)) e apenas 1976/77 a 1ª resposta oficial então oficialmente colocada no Ministério da Justiça. Em 1987 surge finalmente a resposta no Ministério da Saúde, com o CTaipas e restantes serviços que se seguiram na criação da rede vertical de implantação de respostas, para num futuro os profissionais e serviços voltarem a ser integrados na restante rede nacional de saúde. Para essa rede SPTT/IDT, contribuíram muitos profissionais das áreas sociais, e tratando-se de doenças, foram fundamentais os médicos, sobretudo de Psiquiatria e de Medicina Geral e Familiar. Conheci largas dezenas e se muitos aceitaram aprender para ajudar, muitos mais continuaram a... rejeitar intervir. 
Alguns mudaram de opinião e outros estão na mesma.

A Patologia aditiva, a dependência patológica, evidencia inegavelmente o sofrimento que atinge a dimensão psíquica de quem sente, e muitas vezes, mas nem sempre, a dimensão física.

Entre nós, muitos Médicos de Medicina Geral e Familiar cuidam abundantemente do sofrimento mental dos seus doentes. E quando necessário articulam com os Serviços de Psiquiatria. Mas é verdade que alguns, por várias razões, não cuidam dos que sofrem de patologia aditiva.
Entre nós, muitos Psiquiatras e cada vez mais os mais jovens cuidam abundantemente de doentes que sofrem de patologia aditiva.

Os serviços de Saúde Mental têm que assumir plenamente as suas responsabilidades. Já o tenho dito e escrito. Aumentado o conhecimento e quebrado o estigma, também em devido tempo deixou de haver serviços verticais para a lepra, e para a tuberculose.

Em Portugal, desde há uma década de anos, pelo menos, o que temos visto a descarrilar, manifestamente revela o que se fez ou não fez com competência. Da publicidade que se reconhece, para mal da saúde e bem-estar, destaca-se o avanço de comportamentos com riscos.
Quanto ao tratamento e recuperação de quem adoeceu, apesar da publicidade que se reconhece, as assimetrias atingem a dimensão da amargura em doentes e também em quem para eles trabalha. Há profissionais que têm MEDO de dizer o que pensam, com receio das avaliações que possam surgir. A graxa voltou ao departamento. “Não posso falar muito porque ainda estou lá dentro” MF profissional de enfermagem.

A agonia que existe em alguns serviços, a mágoa que existe em doentes e profissionais, o que falta na redução de riscos e na recuperação, o descontrolo na procura, ultrapassa-se com competência profissional e verdade, e não com a complacência com a inércia e satisfação de responsáveis técnicos e políticos, existentes desde há mais de uma década. Ainda há 3 anos ouvi da boca do responsável do MS a sua satisfação com a sua equipa… Quem quer sobreviver flutua na crise, para agradar a quem manda, de alto a baixo.

É preciso mudar, para servir quem necessita… Porque sou livre a pensar sou pela mudança.
A formiga no carreiro vinha em sentido diferente… ZA
https://www.letras.com/jose-afonso/67140/