quarta-feira, 26 de março de 2014

Smart Drugs Addition. Portugal. Crítica Social aos 15 meses de tratamento.

Março 2014


O doente tem muita razão
O que se passou em Portugal não devia ter acontecido. Portugal também foi alertado. Não devia acontecer o que aconteceu. Os serviços responsáveis falharam. Apesar de avisados, não houve antecipação que tenha oportunamente resultado de forma eficaz. Por isso Portugal viveu um período libertário de oferta, acompanhado ou de ingenuidade ou de enorme ignorância sobre o consumo.

Falhámos, porque falhou em devido tempo a Prevenção na Redução da Procura e a Prevenção no Controlo da Oferta. Será que houve a tentação de assobiar para o ar e dizer como antigamente que, “a culpa é de quem consome”?

Em Portugal muitos profissionais de saúde que trabalham com os doentes foram confrontados com situações clínicas para as quais não estavam preparados.

Os políticos mudaram a lei e naturalmente regrediu imenso a oferta e o consumo. Mas a Internet facilita a oferta e o consumo cego mantém-se, como bem sabe quem trabalha com doentes. Não deixam de adoecer pessoas por consumirem o que não se sabe o que é, nem de onde vem.

Mas os consumidores têm o direito de saber a verdade sobre o que lhes é proposto para consumir. Consomem o que consomem mas, em termos de conteúdo, desconhecem a sua verdadeira composição. Algumas pessoas consumidoras julgam-se bem informadas, mas sabemos que não dispõem de informação rigorosa.

Quem é profissional e procura ser competente, quem entende de saúde e sabe o que se passa, tem obrigação de partilhar o que sabe. E se não sabe o que se passa, mas é responsável, deve mandar investigar e difundir os resultados em tempo útil. Não partilhar é ser cúmplice na promoção do comportamento de risco.
Quem trata pessoas que adoeceram por terem consumido substâncias psicoactivas, tem necessidade de saber o que está disponível, cientificamente, saber o que foi consumido para melhor tratar quem adoeceu, e para melhor procurar prevenir a recaída e tratar as comorbilidades.

Ainda há pessoas que consomem estas substâncias e que, quando adoecem contactam com serviços de saúde, para receberem tratamento. Em Portugal porque a lei mudou, a pressão quantitativa da oferta foi reduzida, mas a ignorância quantitativa e qualitativa ainda é inaceitável. É preciso ir mais longe, aprofundar, saber mais, para melhor actuar na defesa da saúde.




IV Congresso Nacional 
I Encontro Ibero-Brasileiro de Patologia Dual
e Comportamentos Aditivos

Associação Portuguesa de Patologia Dual
Sociedade Espanhola de Patologia Dual
Associação Brasileira de Psiquiatria

Mesa redonda dia 6 Março 2014
NOVAS SUBSTÂNCIAS SINTÉTICAS EM PORTUGAL.
O QUE VIMOS E DOENTES QUE TRATÁMOS

Neste mês, em Coimbra tivemos oportunidade de mais uma vez reunir com colegas portugueses que têm experiência de trabalho real nestas áreas. Aconteceu no Congresso de Patologia Dual, para o qual propusemos e foi aceite a mesa redonda NOVAS SUBSTÂNCIAS SINTÉTICAS EM PORTUGAL. O QUE VIMOS E DOENTES QUE TRATÁMOS e onde apresentámos o vídeo SMART DRUGS, Adição, Transtorno de ansiedade & CRÍTICA SOCIAL, que ilustra esta reflexão. Convidámos colegas também pioneiros e com muita experiência e outros mais jovens e com menos experiência.


Se é legal, não faz mal

Dr.ª Rita Teixeira, Dra. Georgina Maia, Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do C. H. Lisboa Ocidental 


Perfil e quadros clínicos de doentes com história de consumo injetável  prolongado de mefedrona e similares

Dr. Licínio Santos, Médico Psiquiatra, Dr. Nélio Mendonça, Unidade de Tratamento de Toxicodependência do Serviço de Psiquiatria do Hospital Funchal, Portugal
Novas substâncias e o internamento
Dr.ª Luísa Mendes, Médica Psiquiatra, Coordenadora do Internamento da UD, Centro das Taipas, Lisboa, Portugal
Dra. Cláudia Reis, Médica Interna de Psiquiatria, Hospital São Francisco Xavier, Lisboa, Portugal
Dr. Lucas Manarte
, Médico Interno de Psiquiatria, Serviço de Psiquiatria, Hospital de Santa Maria, Lisboa

A todos estes colegas convidados muito agradeço a preciosa colaboração na partilha da sua experiência.

Nova preocupação?
A preocupação pelo mau uso de substâncias sintéticas não é um acontecimento novo entre nós. Foi há 20 anos em Filadélfia que pesquisei, recolhi e paguei, para trazer para Portugal, documentação sobre substâncias sintéticas, nomeadamente MDMA. Ofereci a colegas, até como estimulo para uma comunicação. Durante os anos 90, com a ajuda de muitos portugueses e também com colegas estrangeiros, em múltiplas ocasiões promovemos o estudo a partilha do saber. Já no início deste século, a progressão de oferta de novas substâncias sintéticas estava a ter um incremento significativo. Em 2004 no Encontro das Taipas, (um dos vinte e um que organizámos de 1988 a 2008), tomámos a iniciativa de revisitar e actualizar a formação em Substâncias Sintéticas, uma vez mais com âmbito internacional. E em 2009 e já a título pessoal, levámos para a América Latina a partilha da formação específica sobre substâncias sintéticas, apoiada na Mala da Prevenção.

Estar atento, agir ou reagir
Na Europa houve países onde não se instalaram smart shops, local de oferta de novas substâncias sintéticas. E na Europa houve países onde antes de 2010, adoeceram e morreram pessoas que consumiram novas substâncias sintéticas. E houve países que de forma célere ilegalizaram essa oferta.
Mas em Portugal aconteceu a oferta, onde em cada local, compradores se fidelizaram como consumidores.

Faz em Maio 4 anos, que foi publicado para o mundo, o alerta das estruturas oficiais da União Europeia. O comunicado saiu em 2010 do OEDT, Observatório sediado em Lisboa, (News release No 4/2010).

Em Portugal, depois de 2010 também morreram pessoas que presumivelmente terão consumido novas substâncias. E em Portugal adoeceram, muitas, muitas mais. Muitas famílias ficaram muito sofridas, magoadas. Muitas continuam inquietas.

Em Portugal a reacção foi lenta e insuficiente na defesa da saúde. Estamos em 2014 e sabemos que pelo país, e até nos grandes centros, muitos profissionais de saúde continuam sem saber o que fazer, como fazer. A experiência clinica de profissionais da Madeira, bem como a de alguns profissionais do continente, sendo mais aprofundada pela pressão para tratamento, ainda não mereceu a atenção de quem precisa de ouvir para aprender para melhor fazer. E os danos não deixam de acontecer.

Quem são os responsáveis pela falta de conhecimentos, quem foi responsabilizado pelo libertário pseudo paraíso da oferta e procura? Antigamente dizia-se que a culpa era de quem consumia, o drogado. Quem pouco ou nada souber de Aditologia dirá: se morreu, não tivesse consumido, a culpa é do morto.
Conheço quem consumiu e reclame. “Para fugir aos ambientes dos dealers, comprei produto legal, paguei IVA, consumi e adoeci quando apenas me queria divertir”. 

Esta realidade evidencia quanto falhou a Prevenção, a estratégia. E para tratar quem adoece têm que ser gastos recursos. E para fazer bem o tratamento necessário, é preciso que também haja a necessária competência.

Será que no âmbito de novas substâncias sintéticas reconhecidas em 2007, oficialmente e internacionalmente denunciadas 2010, ilegalizadas em Inglaterra em 2010, ilegalizadas em Portugal em 2013, continuaremos como antigamente, denegando carências e erros evitáveis?

Será que, tal como no álcool em abuso, no uso de canábis em expansão, no abuso de cocaína, no mau uso de medicamentos, nas crescentes adições sem substância, continuaremos denegando desde há cerca de uma dezena de anos, carências e erros evitáveis?

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar
A ignorância e a arrogância são malignas. Com uma imprensa boa, com influências em poderes dos momentos, podem-se enganar políticos, famílias e boas pessoas, mas não se enganam nem os doentes, nem todos profissionais que trabalham com doentes.

Aprendemos e transmitimos que a partilha do conhecimento aproxima as pessoas, pelo que, se souber do tema, se estiver preocupado, não deixe de partilhar o que sabe. Fale, escreva, não tenha nem vergonha, nem medo.

Se durante este século progressivamente voltou a ter medo, diga o que pensa da qualidade em perda desde há anos, volte a perder o medo. Assumamos que nestes anos de século XXI não somos tecnicamente aquele exemplo que a propaganda fez… “querer”.

Fale-se da realidade com verdade.
Continuando a ignorar agravamos a situação. Partilhando aprendemos.
Haja muito mais saúde e muito mais responsabilidade.
Luís Patrício

PS: Para quem não sabe, em 2009 a MALA da PREVENÇÃO colaborou na formação de formadores no âmbito das Drogas Sintéticas, nos países da Comunidade Andina de Nações, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, no programa DROSICAM, com apoio da EU.

Em síntese no You Tube perceba o que se passou:

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Observe e pense. Droga ou atitude?



Observe e Pense. Droga ou atitude?

Por sugestão amiga aqui coloco mais um slide show Observe e Pense, da MALA da PREVENÇÃO, em que jogando com palavras e com os seus significados, se pretende clarificar o conceito de droga de atitude. Como foi dito por um estudante de Coimbra, numa tertúlia ao serão com a MALA da PREVENÇÃO, no bar da Associação Académica, em Coimbra: a acetona serve para limpar o verniz das unhas: cheirar acetona é que uma droga de atitude.

Veja este pequeno vídeo se desejar:

http://www.youtube.com/watch?v=-YbfcfytPi0

Medicamento ou droga?
Droga ou medicamento?
Droga é a substância psicoativa?
Droga é a atitude com a substância psicoativa?
Há comportamentos que são…uma droga!




Consumo, consumismo, prazer e dependência

Por razões de Saúde, de Educação, e de defesa do consumidor, importa separar o que é a situação de uso ocasional ou de uso frequente sem danos, e o que é a situação de mau uso/abuso com danos para o próprio ou para outros, e ainda, o que é a situação de dependência.
Texto retirado do meu novo livro, a sair oportunamente.

Não desista de pensar

Obrigado por nos visitar

Luís Duarte Patrício 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Nyswander/Dole Award Filadélfia AAOD 2013 CONFERENCE




AAOD 2013 CONFERENCE  
Let Recovery Ring in a New Era


Por Luis Patrício


Uma honra e uma forma de lhe agradecer

Vim a Filadelfia por ter sido nomeado pelos meus colegas da Associação Americana AATOD  para receber um prémio de carreira que deixa muito honrado.
Trata-se do prestigiado Nyswander/Dole Award
Vincent Dole, Marie Nyswander e posteriormente a então jovem Mary Jeanne Kreek, desbravaram caminho e contribuíram imenso para salvar tantas vidas, no nosso planeta Terra, introduzindo nos anos sessenta o tratamento de manutenção opióide com metadona. Foi desde essa iniciativa e até hoje, que se seguiu toda a enorme investigação subsequente para os outros medicamentos agonistas, antagonistas e agonistas parciais, como a buprenorfina que tanta gente tem ajudado. É inegável o benefício do uso adequado dos medicamentos opióides, metadona, naloxona, naltrexona, LAAM e Buprenorfina, de entre outros.
Há uns anos, e noutra ocasião em que estive neste congresso, foi galardoado também um cidadão europeu, Francês, parisiense. Foi o Dr Didier Touzeau, colega e amigo, que muitas vezes tem estado em Portugal. Orgulhoso por ele naturalmente pude felicitá-lo e vê-lo receber o prémio das mão do Dr Vincent Dole.
Nestes dias tive o privilégio de ouvir, a conferência histórica da sempre actualizada Prof Mary Jeanne Kreek e a honra de a ver presente na minha segunda e terceira intervenções.

Em Filadélfia onde pela primeira vez vim em 1989, encontrei alguns amigos e conhecidos de que destaco o Prof Charles O’Brien, e a Prof Laura Mac Nicholas, prestei homenagem a outros que por aqui me ajudaram, Prof Robert Greenstsein, Dr Marvin Weisbrot, Dr Willian Hushion. Com todos estes profissionais aprendi e ao longo dos anos, todos pudemos receber em Lisboa.
Desta vez vim a convite do Dr. Mark Parrino, presidente da AATOD. O Dr. Mark Parrino tem sido um dos construtores das pontes técnicas e cientificas com a Europa, nomeadamente através da ligação AATOD – EUROPAD, presidido pelo Prof Icro Maremmani, associação a que tenho a honra de pertencer.
Fiz uma pequena homenagem ao Dr. Mark Parrino que pode ver no YouTube Dr Luis Patricio


Neste congresso foi-me dada a honra de fazer três intervenções:
Portugal – Reality & Myths
Psychoactive substances, heroin addiction - What has been done in Portugal
Agradecimento 

Ainda de Filadélfia, aqui deixo a intervenção final de Agradecimento que desejo partilhar com todos os me têm acompanhado ao longo de tantos anos e também com todos os que me acompanharam em alguma etapa ou algumas etapas do percurso da vida.
Espero que muitos possam ficar satisfeitos, porventura com a alegria sentida e manifestada pelos meus familiares, colegas e muitos amigos.
Esta é a minha forma de agradecer a todos quantos no SMS, e-mail, ou Facebook, me manifestaram a estima que compartilho, e retribuo.
E a finalizar partilho a alegria de também receber as felicitações de uma simpática psicóloga portuguesa  luso descendente presente no jantar,e que trabalha em Chicago. Tinha sido avisada por sua mãe, em Aveiro, que havia um português nos nomeados... Terá lido no JN ou no DN e sua mãe insistiu para que me fosse saudar e aconteceu.
Muito obrigado
Bem hajam
Luís Duarte Patrício

Razões que foram lidas pelo Dr. A. Thomas McLellan. e que no entender do comité justificam a atribuição deste prémio honorifico.

Dr. Luis Patricio is a Psychiatrist and Clinical Director at Unidade de Aditologia e Patologia Dual-Casa de Saude de Carnaxide-Portugal. Dr. Patricio contributed to the introduction of agonist opioid treatment for drug addicts in Portugal through his consultation activity at the Ministry of Health and through his active clinical practice. He has been involved in this field since the 1980s, and in 1987, he co-founded the first center for the treatment of drug addicts in Portugal (called TAIPAS). This facility was the first in the network of centers treating drug addiction, which now serves the entire
country. Dr. Patricio was a pioneer in the use of LAAM (1994-2000) and a leader of the launcher team for Buprenorphine (1999) and Buprenorphine-Naloxone treatment in Portugal (2006). He is very active in disseminating information on correct methodology of treatment through books, TV programs, radio programs, DVDs, Prevention Briefcase and blogs dedicated to the treatment of heroin addiction.

AGRADECIMENTO
This is a very special moment to honor Dr. Vincent Dole and Dr. Marie Nyswander, American citizens, pioneer scientists, and an example to us all. Also I honor Dr Mary Jeanne Kreek, here present.
God wanted their heirs to decide that this Portuguese citizen and psychiatrist would be here today with you. Obrigado AATOD board.
I am the grandson of a pharmacist whose daughter married a rural general practitioner, and I am the youngest of ten. In the large family we are more then twenty MD.
Eighty years ago, my father visited his patients on foot, by horse, motorcycle by or car. Today I visit my friends in a 9 hour flight.
I really thank you your kindness for choosing me to receive the Nyswander/Dole Award, also an honor to Portuguese patients from the street, brothels, shelters, out patients and inpatients clinics, day centers, therapeutic communities, their families,  Portuguese teams colleagues, to all my family, my wife, my daughters, my sons in law and my three, almost four, grandsons.

I came to Philadelphia for the first time in 1989, and met George E Woody, Charles P O'Brien, and now I am back, twenty four years after.
Here I learn with William Hushion, drug at work place, and about LAAM, opioid treatment, also with Robert Greenstein, Marvin Weissbrot, Laura Mac Nicolas, here present.

Thank you Philadelphia, thank you AAOT Board and Award colleagues, Roland Lamb, Cheryl Gardine, Thomas Baier, Carleen Maxwell Maria Ramos. Thank you Icro and thank you Mark Parrino.


Nyswander/Dole “Marie” Awards , tribute to those individuals who have been nominated and selected by their peers for extraordinary service in the opioid treatment community. These successful Award recipients have devoted themselves to improving the lives of patients in our treatment system. Dr. Vincent Dole and Dr. Marie Nyswander were the first recipients of this Award in 1983. 
The Association has been responsible for bestowing this honor since the first Regional Conference of 1984 in New York.
The Nyswander/Dole “Marie” Awards has been be presented by A. Thomas McLellan, PhD, CEO and Co-Founder of the Treatment Research Institute, Philadelphia, PA.
The 2013 American Association for the Treatment of Opioid Dependence Conference recognizes outstanding contributions to opioid treatment by honoring the following individuals with the Nyswander/Dole Award.
·         Jim B. Graham, Maryland
·         Kate Mahoney, LCSW, Illinois
·         Joel Millard, DSW, Utah
·         Jerome E. Rhodes, Pennsylvania


Muito obrigado pela sua visita
Partilhe sff, se lhe parecer útil.
Tenha um muito bom dia
Luís Duarte Patrício





sábado, 12 de outubro de 2013

IMPRENSA Jornal EXPRESSO Casos de droga aumentam 70% em dez anos. O que vejo e penso

Casos de droga aumentam 70% em dez anos
Notícia do jornal Expresso
Foram-me colocadas algumas questões pela jornalista, profissional da comunicação social.

É aqui, neste blog, que pode ler na íntegra
o texto que enviei, 
e que traduz o que escrevi, a verdade do que vejo e penso.
Certamente que critérios editoriais, permitiram apenas transcrever algumas ideias.
Aqui escrevo tudo, para que algum interessado possa ter acesso à totalidade da minha participação, feita com base na realidade do que vejo, e oiço dos meus doentes e familiares.



As perguntas do e-mail que recebi da jornalista Joana Bastos 10 de Outubro de 2013 às 15:20, e o que respondi cerca 2h depois, escrevendo entre duas consultas.

 - por via da crise e do agravamento das condições de vida das pessoas (desemprego, dificuldades económicas..), nota alguma alteração no consumo de drogas? Há um aumento do consumo de drogas como a heroína e o álcool?
- os números do SICAD indicam um aumento para o triplo de heroinómanos em recuperação (que já não consumiam há alguns anos) e que voltaram no ano passado e este ano a ser readmitidos nos centros de tratamento por recaídas. Como interpreta este facto?
Acrescente qualquer informação que lhe pareça relevante. Agradeço uma resposta com a maior urgência, visto que o artigo tem de estar fechado hoje.

                                                                                                      Texto publicado no jornal  





As minhas respostas

No ano de 2012 notei manifestamente que as dificuldades aumentavam em quem se queria tratar. 
Tive doentes que deixaram de ir às consultas por falta de dinheiro para transportes, doentes que reduziam a toma de medicamentos por falta de dinheiro para tomar as quantidades prescritas e havia doentes que iam às consultas de transporte público mas sem bilhete e também   outros que iam a pé percorrendo distâncias significativas. (Alcântara Av Brasil, ou Calhariz de Benfica Av Brasil. Estes doentes eram por mim tratados na UD Centro das Taipas. Deixei de lá trabalhar em  Jan 2013.

Até Abril de 2013, foi escandalosa a progressão do consumo de substâncias sintéticas comercializadas em lojas legalizadas, ou através da Internet. Foi patética a situação ocorrida e muito graves as consequências dessa experiência libertária ocorrida em Portugal. De 2010 a 2013 a venda foi livre para produtos de composição química não clarificada,  substancias psicoactivas sem garantia nem controlo de qualidade, negociadas como se fossem o que não eram. Ainda hoje quem trabalha em saúde mental, com  consumidores destes produtos, sabe bem os danos causados. E naturalmente as famílias dos doentes e os consumidores que adoeceram, sabem o que se passou, e ainda passa...
Além do mais houve consumidores cujas mortes foram associados ao uso destes produtos. 

E também é um escândalo o que não se fez em Portugal, nomeadamente pelo facto de o Observatório Europeu OEDT, sediado em Lisboa ter alertado para este "fenómeno" em 2010 e termos demorado tanto tempo a reagir. A demora, certamente que contribuiu para que o consumo e fidelização de consumidores (até de menores de idade) aumentasse.

No ano de 2013, noto a continuação do consumo abusivo de álcool feito por adultos e escandalosa progressão no consumo na via publica por jovens muitos dos quais menores de idade, realidade que se constata de forma crescente em Portugal desde início deste século.

Na verdade, no que constato, desde há mais de 10 anos, é manifesto o crescimento do uso e abuso de álcool e com manifesta e insuficiente intervenção educativa e preventiva do mau uso. E igualmente é inegável a banalização do consumo de haxixe e de erva que corresponde, naturalmente ao significativo aumento da oferta/disponibilidade. 

Este aumento não é de agora. E, entre muitas pessoas, consumidores e não consumidores, existe e aumenta uma representação de que em Portugal é legal a posse de algumas quantidades de substancias que são ilegais...

Nestes anos, de 2009 a 2012 também tenho constatado o aumento no consumo de cocaína (novos e velhos consumidores de substancias ilegais e de álcool e tabaco). Seja em privado, nas discotecas, nos WC de bares, seja nas calçadas, escadas ou ruelas, quem desejar saber, pode ir ver consumidores de cocaína ou de base/crack. 

Mas já não é tão evidente o consumo por via intravenosa, nem de cocaína nem de heroína. 

E quanto ao consumo de heroína, não constato aumento de novos consumidores. Mas há sim algumas situações de recaídas em heroína, relacionadas com:
- o abandono do tratamento
- o consumo aumentado  de cocaína que é seguido pelo uso de  heroína para baixar
- o tratamento medicamentoso com  insuficiente dose (nomeadamente metadona ou buprenorfina), situação que acontece por varias razões, mas sempre, repito sempre inaceitáveis.

- os números do SICAD indicam um aumento para o triplo de heroinómanos em recuperação (que já não consumiam há alguns anos) e que voltaram no ano passado e este ano a ser readmitidos nos centros de tratamento por recaídas. Como interpreta este facto?

Não confirmo. 
Reconheço que há recaídas, e que o abandono do tratamento feito pela pessoa doente, que a alta precoce, ou que a insuficiência da dose de tratamento, são factores de recaída.

Em tempo de dificuldade financeira, quem não tiver dinheiro e insistir no consumo, terá que usar produtos mais baratos.
Constato que, nesta situação de crise, há doentes que adoeceram por razões directamente relacionadas com a sua situação de vida laboral dificultada, com seu o desemprego, com o seu sofrimento financeiro familiar, com as carências várias reflectidas na família, com as dificuldades no ensino. É uma constatação o aumento de doentes com perturbações da ansiedade e perturbações do humor/depressão.

E constato que mercê de dificuldades financeiras, há doentes que:
- abandonam o tratamento:
- vêm menos vezes às consultas, por falta de dinheiro para transporte ou para pagamento de consulta;
- na consulta pedem medicação para mais tempo;
- pedem que receite menos medicamentos:
- pedem que receite apenas medicamentos genéricos
- pedem renovação do receituário, mas sem ter consulta:
- levam a receita médica mas não compram todos os medicamentos, fazendo por si a selecção do(s) que lhe(s) parece(m) mais necessário(s).
- levam a receita médica, mas não compram os medicamentos.

Naturalmente que estes comportamentos não são apenas de doentes com patologia aditiva. Trata-se de respostas comuns em bastantes doentes com depressão e outras patologias.

Fui co fundador do Centro das Taipas e director até 2008. Saí por… minha decisão. 
Dois anos depois voltei a lá trabalhar como voluntário, o que me foi permitido até Dez 2012.
Mas continuo a trabalhar em Saúde Mental e nomeadamente em Aditologia e Patologia Dual. Trabalho actualmente na Unidade de Aditologia e Patologia Dual da Casa de Saúde de Carnaxide.
Pode-se ler o que faço nos blogs que escrevo
Videos em
http://www.youtube.com/user/psimedicina?feature=watch


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Recuse deixar de pensar.
"Não há machado que corte..."
Nunca deixe de usar a sua liberdade
Luís Duarte Patrício